
Para nós, originários de países onde apenas conhecemos o chocolate, sem parar para pensar como este é concebido, apreciar todo o processo de transformação pode traduzir-se num momento mágico.
Melhor que ver esta transformação, é fazer parte deste processo – é o que se faz por cá.
Tabasco produz muito cacau - há por cá várias fazendas de cacau onde a produção ainda é regida pelas regras do antigamente. Tudo é feito para que as tradições se mantenham vivas!
Esta planta tem um papel muito importante para a vida destas pessoas, pela história, pelo misticismo, pelo legado dos Maias, que a usavam como a sua “jóia mais valiosa”, nas suas trocas comerciais e até mesmo pela forma de como os tabasqueños são apelidados, como são conhecidos pelos outros estados e assim, com orgulho, se autodenominam – Chocos. O chocolate é parte viva da sua cultura, portanto.
É possível fazer esta rota conhecida como “Ruta del Cacao” que passa pelas fazendas de cacau, pela zona arqueológica de Comalcalco e terminar em grande pelas marisqueiras de Paraíso onde se comem uns belos duns mariscos de comer e chorar por mais.
Eu, acompanhando um grupo de agentes de viagens de vários continentes, numa FamTrip, pude experimentar esta rota. Na nossa visita passámos por 2 fazendas de cacau – zona arqueológica de Comalcalco – Paraíso – Villahermosa.
Comecemos pela fazenda Jesus Maria, em Comalcalco, onde a tradição impera no cultivo, tratamento e produção do cacau. O Engº Vicente, pessoa responsável pela fazenda e pela fábrica, fez-nos uma apresentação da fábrica, onde se produz o chocolate CACEP. Ali estávamos enquanto os trabalhadores iam transformando o cacau em chocolate.
Pudemos ver e tocar nas sementes secas e torradas que, posteriormente foram moídas; a esse pó podem juntar-se as mais variadas especiarias, originando sabores bem peculiares que me atrevo mesmo a dizer que “primeiro estranham-se e depois entranham-se”.
Repare-se, agora, que curiosamente, tudo o que está relacionado a esta fazenda tem presente o número 5: os dois nomes (Jesus e Maria) têm, cada um, 5 letras, o nome da fábrica CACEP, também, o cacau é plantado e só se colhe pela primeira vez o fruto aos 5 anos e 5 meses.
O fruto tem 5 filas de sementes e, segundo reza a lenda, daqui surge a importância do número 5.
As enxertias embora sejam uma técnica antiga, são usadas no cacau há relativamente pouco tempo - apenas há algumas décadas, no entanto, através da enxertia é possivel conseguir fruto mais cedo, arvorés mais baixas, e fazer enxertos dos tipos de cacau que se deseja.
Esta é uma fazenda bastante grande, quase 20 hectáres, com uma variedade de plantas invejável, com grandes plantações de cacau e com um ambiente perfeito para quem se quer perder na natureza aprendendo e descobrindo algo novo a cada metro de caminho.
Seguindo o trilho, encontrámo-nos com os homens que extraem a semente do cacau: ali estavam eles, a abrir o fruto e retirar as sementes para posteriormente fermentarem, secarem e serem torradas. Diga-se que estas sementes são tudo menos como eu imaginava: brancas, com uma camada gelatinosa que se podem consumir assim mesmo, como nós fizemos. O seu sabor, é neutro, em nada sabe a chocolate (nem sequer se parece a isso), levemente adocicado e agradável. Aliás, algumas das bebidas mais antigas preparadas com as sementes em cru, neste estado.
Depois de uma caminhada pela zona da plantação do cacau, passeámos pela zona onde estão as casas dos campesinos, onde se ostentam, orgulhosamente, exemplares de bens de antigos campesinos que trabalhavam a terra: roupas, altares aos seus santos, remédios caseiros, cozinhas e até brinquedos das suas crianças.
Ao longo de toda a visita fomos acompanhados pelo Eng Vicente, que a cada passo nos falava de histórias e lendas, de benefícios de algumas plantas e de mitos que enriqueceram ainda mais este passeio, como das folhas de uma árvore, aparentemente normal, que alguns países a usam como droga, como na Costa Rica, em que queimam as folhas, inalam o fumo e depois desfrutam de uns momentos como se tivessem consumido Cannabis.
Na fazenda Jesus Maria, pudemos também experimentar a cozinha mais antiga desta região, foram-nos feitas várias comidas típicas, artesanalmente, como a tortilha de milho amassada e preparada à mão, como os Tamales de camarão (embrulhados em folha de bananeira).
Terminamos, então, esta visita degustando várias especialidades desta região, acompanhadas pelas antigas bebidas à base de cacau e vários tipos de chocolate. Como nos disse Srº Florêncio, um dos responsáveis pela fazenda que domina a produção do cacau como ninguém, esta não foi uma visita guiada: foi um passeio e uma conversa de amigos!
Passámos então à fazenda La Luz, onde Anna, descente de Alemães que vieram para o México e por cá ficaram, trata de manter a fazenda da família com muito amor.
Existem muitas variedades de plantas e animais, a vida sentem-se em cada canto desta fazenda. Anna mostrou-nos uma parte da fazenda, abordando algumas peculiaridades de alguns exemplares da flora aí existentes. Este é um conceito um pouco diferente, é uma fazenda com uma variedade de fauna e flora bastante forte, no entanto, está bem no meio da cidade - hectáres de verde na cidade.
Neste passeio conhecemos as árvores que antigamente utilizavam para tingir roupas, para colar materiais, até para mascar, como atualmente fazemos com as chiclets e, claro está, absorvemos ainda mais informações sobre cacau.
Soubemos que aqui existem também macacos nas plantações, pelo menos duas "tropas", como chamam a cada grupo que vive em sociedade. Cada uma destas tem o seu território e se um membro saltar para o lado do inimigo, pode ser vitima de um forte espancamento, por parte da tropa rival ou da sua própria tropa; Anna comentava que por vezes, as cenas de violência a que se assiste da parte deles, são muito mais agressivas e de uma violência de tal modo exagerada que choca quem vê.
Posteriormente passamos à zona de produção, esta zona existem placards informativos sobre a antiguidade e produção de cacau e aqui, enquanto Anna nos vai dando explicações sobre os vários passos na transformação, podemos experimentar os vários passos, por exemplo mexer o cacau enquanto está a fermentar: imagine-se uma espécie de tanque comprido onde com um “remo” se mexe as sementes; para posteriormente se estenderem ao sol para secarem, a torragem é o passo seguinte. Antigamente era torrado em "Comales", uma espécie de prato grande de barro, que inspirou o nome ao município,o qual se colocava em cima de fogo com as sementes para tostas. Estas devem ser peladas em quente, porque depois de arrefecer torna-se mais difícil tirar-lhe a "casca". Hoje em dia, a torragem é feita em maquinarias bem maiores. O processo de moagem, em pequena escala claro, foi também executado por nós, com especiarias à nossa escolha e algumas sementes de cacau: numa pedra lisa que serve de base e uma espécie de rolo da massa, mas de pedra, ao que chamam metate (ou seja, pedra de mão), moemos o cacau junto com pimenta e quando o provámos o resultado foi surpreendente: era mesmo saboroso.
Seguimos pela fazenda, onde nos cruzámos por um casal de papagaios que coloriam aquele átrio. Estavam engaiolados, mas apenas para sua proteção: tinham sido resgatados e como nunca viveram em habitat natural, não estavam preparados para viver sozinhos na natureza, então passaram a ser membros da família da fazenda “La Luz”, que os cuida e trata há já muito tempo.
Terminámos a visita no espaço que serve de loja, onde um “chocolatier” estava a confecionar uns bombons de chocolate com morango, para nossa degustação e onde provámos a tão famosa aveia com cacau, típica deste estado.
A sensivelmente 30 min estão as pirâmides de Comalcalco, a zona arqueológica que ostenta as únicas pirâmides do mundo Maia construídas com tijolos de barro cozido. Começamos a visita por entrar no museu da zona arqueológica onde se conheceram muitas histórias, onde vimos o famoso do calendário do mundo Maia e muitos outros vestígios encontrados nesta zona.
Estas pirâmides apresentam inúmeras coisas invulgares, mas uma das mais peculiares é a sua singularidade no que toca aos materiais usados: primeiro, como já referi, é a única pirâmide de barro cozido, segundo, estão cobertas com uma espécie de estuque feito à base de conchas de ostra. Aspetos como estes só nos deixam ainda mais intrigados quando se reflete na grandiosidade desta cultura.
São vários os factos que levam a crer que esta foi a primeira cidade maia do México, uma vez que desta cidade para outras, por exemplo Mérida, já se reconhecem evoluções na edificação destas bases piramidais. Provavelmente existe, segundo un ancião que pela zona andava, muitas mais edificações, sendo que apenas foi escavada uma parte de todo aquele território.
Eles, os Maias já usavam, há já milhares de anos áreas do conhecimento como a geometria descritiva, a simetria entre outras. Eram seres de uma sabedoria incomparável, e tudo o que faziam e a forma como faziam têm uma forte explicação - chama-se a estas construções bases piramidais pois não terminam, como as pirâmides, e porque são constituidos por patamares, mas isso deve-se à comparação com a nossa sabedoria, a inteligência e evolução humana, que nunca termina e que sempre podemos evoluir, é infinito, daí não terminarem, e por outro lado, não estão fechadas às ajudas divinas.
O que sentimos aqui é algo que não se consegue explicar, estar lá em cima, na pirâmide mais alta, tida como o palácio, onde viviam os superiores hierárquicos, estando assim mais perto dos céus, rodeada por natureza onde apenas se escutava o eco dos sons emitidos por falcões, águias, enfim, por todas aquelas aves de rapina que davam ainda mais ambiente à zona, é algo que nos transporta verdadeiramente para outro mundo.
Cada uma destas zonas tem, com toda a certeza, as suas particularidades, no entanto, desta, gostei particularmente pelo sossego, pelo silêncio que encontramos no local, permitindo a quem gostar destas culturas, como eu, fechar os olhos ou então sentar-se desde o ponto mais alto, de onde se vê toda a cidade, permitindo viver, viajar na nossa mente para este mundo, sentir que ali estamos com eles, com os grandes sábios deste mundo.
Esta rota terminou em Paraíso, município tão bem conhecido por cá pelos seus mariscos invejáveis. Aí paramos para comer num conhecido restaurante junto ao rio, comendo assim pratos tradicionais (a banana é um dos fortes, que está em muitos pratos, sejam doces ou não) e ao mesmo tempo, apreciando as vistas. Do outro lado, apenas se viam pequenas casas e pequenas canoas que os moradores utilizam para se deslocarem.
Quando terminámos a rota, o corpo sentiu-se cansado, mas a mente muito mais forte com o que tinha acabado de viver!!!
Rota do Cacao ao chocolate e Zona Arqueológica de Comalcalco
![]() Flor de CacauDesta pequenina e frágil flor cresce a forte mazorca do cacau | ![]() Semente de cacauDepois de consumir a camada gelatinosa bem agradável, trincando a semente percebe-se que não é cacau criollo, senão seria branca em vez de lilás | ![]() Antiguidades*Antigamente tudo era ao natural, tudo era mais saudável. A natureza é um espanto* |
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![]() As grandes árvores | ![]() Em processo de fabricoChocolate produzido industrialmente | ![]() A preparar o nosso chocolate* |
![]() Sementes a fermentarAqui as sementes de cacau devem ser mexidas | ![]() Bebida de chocoaveia e bombom |
![]() C O M A L C A L C O | ![]() As mensagens que nos deixaram | ![]() As suas esculturas |
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![]() Parte da civilização | ![]() Tijolos de barro cozido | ![]() Magia de verdadeO melhor dos sentimentos, a melhor das sensações* |
![]() Cidade maya | ![]() Cidade de sabedoria | ![]() Mensagens |
![]() A primeiraParece pequena mas não o é, aqui veêm-se perfeitamente os patamares e que o último poderia ainda ser completo, como a nossa evolução | ![]() Ciudad Maya | ![]() Peças do museu |
![]() Peças do museu | ![]() VestígiosComo eram enterados e entregues às divindades, em posição fetal | ![]() A bela da CheladaBebida típica: cerveja, sal e sumo de lima |
![]() Banana frita com cremeSempre e com tudo: frita, doce, salgada, crua, assada, como entrada como prato principal e como sobremesa | ![]() IMG_20150328_180548.jpg | ![]() IMG_20150521_173508.jpg |














































